Segundo analistas, mesmo em ano eleitoral, a tendência é de queda, em meio à escalada da Selic, atualmente em 11,75% ao ano

Com a inflação em disparada e acumulando altas nunca vistas desde o início do Plano Real, em 1994, e as perspectivas de desaceleração ou de estagnação do crescimento econômico, tanto no Brasil, quanto no resto do mundo, devido à guerra na Ucrânia, os investimentos produtivos, que fazem a roda da economia girar de forma mais sustentada, não devem decolar em 2022, alertam os analistas. Pelo contrário. O ano mal começou e as perspectivas de analistas são de que, em pleno ano eleitoral — quando os governos federal e regionais tendem a gastar mais em busca da reeleição — a tendência é de queda nos investimentos produtivos, por conta da escalada da taxa básica da economia (Selic), atualmente em 11,75% ao ano. Algumas estimativas preveem os juros chegando a 14% até agosto após a surpresa no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março.

Analistas reconhecem que não há perspectiva de crescimento dos investimentos neste ano, principalmente, porque não veem a atividade econômica reagindo, porque o país não tem forças para um crescimento após a alta de 17,2% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), termômetro dos investimentos produtivos no país, em 2021.

No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,6% após o tombo de 3,9% em 2020, menos do que as médias globais, de 4,9%, em 2021, e de -3,6%, em 2020. A mediana mais recente das estimativas do mercado do boletim Focus, do Banco Central, prevê alta de 0,5% no PIB deste ano, enquanto o mundo, pelas estimativas do Banco Bradesco, de 4,6%. O banco está otimista quanto ao mercado, pois estima alta de 1% no PIB de 2022.

Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, está projetando queda de 4,2% nos investimentos produtivos, neste ano. “Estamos fechando o mapeamento, mas acreditamos que não deverá haver mais o efeito contábil da importação de plataformas de petróleo”, destaca, em referência ao processo de internacionalização de plataformas da Petrobras que nunca saíram do país para aproveitar incentivo fiscal do Repetro. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, não prevê crescimento do PIB neste ano e estima queda nos investimentos em torno de 3%. “O governo tem acelerado algumas concessões, por causa das eleições. Mas o investimento privado ainda segue retraído”, explica.

Vale ressaltar ainda que houve um fluxo de entrada de investimento estrangeiro no país buscando juros altos e ativos de empresas exportadoras de commodities, na Bolsa de Valores, principalmente. “São investimentos de curto prazo na Bolsa que estão acontecendo pela situação global, agora, com guerra na Ucrânia e inflação acelerada. Mas o momento atual é de muita incerteza, e não é para investimentos de longo prazo”, afirma o economista da MB.

Carestia recorde

Na sexta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o dado do IPCA, que acelerou 0,61 ponto percentual em relação a fevereiro, para 1,62%, a maior variação para o mês em 28 anos, ou seja, desde 1994, quando o índice foi de 42,75%. No acumulado em 12 meses até o mês passado, o IPCA, que mede a inflação oficial, saltou 11,30%, reforçando a tese de que as pressões inflacionárias não devem ser dissipadas tão facilmente, o que exigirá do Banco Central uma carga maior na taxa Selic para conter a inflação abaixo do teto da meta determinada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 5%.

Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, reforça que um dos impactos do aperto monetário do BC deverá afetar diretamente o investimento produtivo. “Neste ano, os investimentos devem encolher 2,9% e uma parte desse impacto será em construção civil e a outra, em máquinas e equipamentos. Vamos ter uma combinação de acomodação e uma desaceleração dos investimentos”, diz. Ele prevê que o PIB de 2022 ano não deverá ser negativo, devendo crescer 0,5%, porque haverá ajuda do setor de serviços, devido à reabertura, e do agronegócio, por conta das exportações de commodities, cujos preços estão disparando devido à guerra na Ucrânia.

Incertezas

A economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), reconhece que, neste ano, as incertezas para o investidor de longo prazo aumentaram e não apenas por conta das eleições deste ano no Brasil. “O ano de 2022 será difícil e a certeza é de que todos terão que saber nadar em águas turbulentas”, resume. “Como tem eleição, em princípio, esse risco está mapeado, mas a guerra na Ucrânia ajudou a busca de retorno. É triste ver que há quem esteja lucrando com a guerra e com o real se valorizando. Eu entendo esse momento, mas isso não quer dizer que o Brasil vai ser maravilhoso. Alguns segmentos se beneficiam, mas essa guerra pode ser disruptiva”, explica.

Na avaliação de Silvia Matos, o movimento de investidores estrangeiros é fruto dos juros altos e do estoque de capital depreciado, e, por conta disso, é preciso pensar racionalmente, pois esse fluxo pode mudar de direção a qualquer momento, basta os Estados Unidos começarem a elevar os juros de forma mais acelerada. “Esse movimento está longe de ser investimento sustentável”, frisa.

A economista do Ibre lembra que, para o país conseguir crescer acima do potencial, que encolheu nos últimos anos e está abaixo de 2%, a taxa de investimento em relação ao PIB precisa ficar em torno de 24% a 25%. Em 2019, ficou em 19,2% e, neste ano, deve ficar abaixo disso. “O crescimento da economia em 2021 foi bastante desigual e, diante de tantas incertezas e com o crescimento econômico do país estagnado, com inflação persistente e na casa dos dois dígitos, o desemprego continuará elevado e não haverá alívio para a renda das famílias. Resumindo: Não tem notícia boa”, lamenta.

Fonte: Correio Braziliense.

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