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Clima faz quebra da safra de café chegar a 30% na safra 2018/2019

Altas temperaturas acarretaram floradas desuniformes, com maturação precoce dos frutos

A estiagem que atingiu o Paraná no final de 2018 e começo de 2019 pode ter comprometido parte significativa da produção estadual de café. Segundo relato de alguns produtores, a quebra na safra atual deve chegar a 30%. Paralelamente a isso, o preço do grão também recuou neste período, impactando negativamente a renda dos cafeicultores.

As altas temperaturas acarretaram floradas desuniformes, com maturação precoce dos frutos. Além disso, a onda de calor pegou as plantas no momento de enchimento dos grãos, trazendo prejuízos na qualidade do produto final. “Este ano a colheita começou no início de abril, quase um mês antes do previsto. Além da queda no volume produzido também tivemos grãos menores”, aponta a engenheira agrônoma do Sistema FAEP/SENAR-PR, Jéssica D’angelo.

A quebra deve alterar a estimativa inicial do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), que, no início de maio, previa uma produção entre 1 milhão e 1,1 milhão de sacas de 60 quilos. De acordo com o 2º Levantamento Ano/Safra da entidade, durante os anos normais ocorrem três floradas, entre setembro e novembro. Já na atual safra, foi comum a ocorrência de cinco floradas entre julho e dezembro. “Tal situação atrapalhou a eficiência dos tratos culturais e deverá prejudicar o planejamento da colheita”, afirma o documento. Com o maior número de florações, o café amadurece de maneira desigual, o que significa mais dias de trabalho para colher os grãos e menor qualidade da produção.

No município de Carlópolis, na região do Norte Pioneiro, maior produtor de café do Estado, o clima prejudicou as lavouras. Para o produtor Marcelo Teixeira, que cultiva 72 hectares, a perda está contabilizada entre 30% e 35% da produção.

“Já tiramos [os frutos] da árvore, então já dá para ter uma noção do prejuízo. Num ano bom conseguia até 60 sacas [de 60 quilos] por hectare, mas esse ano vai dar 35 sacas no pau da goiaba”, calcula.

Segundo Teixeira, em janeiro a temperatura atingiu picos de 43ºC na sua propriedade. “Meu pai tem 87 anos, é cafeicultor há mais de 50 anos e diz que nunca viu um calor tão grande. Chegou a cozinhar o café”, afirma.

O estrago também afetou as lavouras de outros produtores da região. “Com os meus vizinhos foi igual. Se juntar a quebra com a queda no preço, ultrapassa 50% de prejuízo”, diz Teixeira. Com parte da sua produção classificada como café especial e encaminhada para o mercado internacional, o produtor também lamenta que o clima tenha afetado a qualidade dos grãos. “Normalmente chego a fazer 40% de [café] especial. Nessa safra, com dificuldade, devo fazer 20%”, avalia.

Em Ribeirão do Pinhal, também no Norte Pioneiro, a produtora Raquel Nader Fraiz calcula que irá amargar quebra de 25% nos primeiros lotes beneficiados. Com 84 hectares dedicados ao café, ela conta que, além do volume, a qualidade da produção também foi afetada pelo clima. “Afetou tanto na granulometria, que é o tamanho dos grãos, na renda [proporção de fruto coco em relação ao beneficiado], como também na qualidade da bebida. Como o ciclo da cultura foi muito reduzido, faltando o tempo necessário para o bom desenvolvimento dos grãos, a incorporação de atributos que dão qualidade à bebida foi reduzida”, avalia.

Para agravar a situação, o preço do café também vem apresentando expressiva redução. De acordo com o Deral, em abril o preço médio recebido pelos cafeicultores foi de R$ 364,46 por saca, valor 11,2% menor do que no mesmo período de 2018. Quando comparado à média anual, o preço da saca ficou em R$ 380,76 em 2019, contra R$ 407,30 em 2018 e R$ 439,65 em 2017. “A média de 2019, indica uma queda de 48% em comparação com 2011, o que torna a cafeicultura atual insustentável”, aponta Jéssica, do Sistema FAEP/SENAR-PR.

Fonte: FAEP/SENAR-PR

Zoneamento de risco climático fez Brasil economizar R$ 16,8 bilhões em 2018

Os impactos associados ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), criado pela Embrapa, trouxeram uma economia de cerca de R$ 16,8 bilhões para o agronegócio brasileiro no ano passado. A estimativa foi calculada para o Balanço Social 2018 da Embrapa e equivale, principalmente, a prejuízos que o País deixou de sofrer com perdas de safras e às consequentes indenizações securitárias que elas provocariam. De acordo com a metodologia do Balanço, o trabalho da Embrapa é responsável por 40% desses resultados, o que equivale a cerca de R$ 6,7 bilhões.

Isso porque, baseado em dados climáticos históricos, o Zarc indica as datas de plantio em que há menor risco de frustração de safra provocada por condições ambientais adversas, ou seja, orienta o produtor e o agente financiador sobre as épocas e regiões mais adequadas para se plantar, gerando maior segurança.

Trata-se de um mapeamento das áreas produtivas de mais de 44 culturas para cada município brasileiro. Os estudos envolvem clima, solo e grupos de cultivares, a partir de uma metodologia da Embrapa adotada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como instrumento de política agrícola.

Os programas do Governo Federal Proagro, Proagro Mais e Subvenção Federal ao Seguro Rural Privado (PSR) exigem a consulta ao Zarc como requisito à adesão dos agricultores. Para os produtores que dependem do Proagro ou do Seguro como garantia de crédito, além de uma proteção, é uma forma de poder acessar o crédito rural. Estima-se que somente o Proagro teve uma economia superior a R$ 2,5 bilhões em 2018, graças à segurança ao investimento proporcionada pelas informações do Zoneamento.

De 1996, quando o Zarc foi adotado pelo Proagro, até 2018, o programa pagou mais de R$ 14 bilhões em indenizações. A estimativa do Balanço Social da Embrapa é que esse valor seria mais de R$ 40 bilhões maior, se não houvesse a tecnologia.

Já o PSR é uma modalidade em que o governo custeia parte do seguro contratado pelo agricultor junto a seguradoras privadas credenciadas pelo Mapa. Em caso de sinistro, são elas que pagam a indenização. “Existe um notório ganho na utilização do Zarc para o PSR, uma vez que sem ele dificilmente as empresas privadas ofertariam seguros agrícolas no País. Bem ajustada, a tecnologia gera confiança a esses agentes em ofertar seus produtos. No entanto, é difícil estimar esse impacto, dada a complexidade das variáveis contidas em um estudo dessa natureza”, ressalta o analista da Embrapa Informática Agropecuária André Fachini Minitti, que participou dos cálculos do Balanço Social.

A tecnologia que viabilizou a agricultura O analista da Embrapa André Fachini Minitti conta que, antes de 1996, ano da adoção do Zarc, outros critérios eram considerados nos programas de mitigação de risco. “Ocorre que, com a falta de uma referência técnica para apoio à tomada de decisão (papel atual do Zarc), a margem de erro era grande, o que ocasionava um volume significativo de perdas agrícolas e, consequentemente, o acionamento do seguro em patamares muito elevados”, conta. Àquela época, as perdas agrícolas atingiam níveis considerados altíssimos. Na safra 1992/1993, 30% das lavouras paulistas de arroz registraram algum tipo de sinistro. Já no Nordeste, a mesma safra sofreu perdas de 41% das plantações de feijão, 70% de milho e 81% de algodão herbáceo. “Com tais níveis de perdas, a atividade agrícola básica tendia a tornar-se até mesmo inviável, impossibilitando, inclusive, que os produtores rurais pudessem continuar arcando com os altos custos da seguridade agrícola”, revela Minitti, citando a literatura científica que analisou o período.

Os especialistas ressaltam que, além de reduzir o risco de perdas ao longo desse tempo, o Zarc foi útil para diminuir as fraudes no Proagro e para consolidar a produção no Planalto Central com a indicação de cultivares altamente produtivas e resistentes.

Atualização constante

Desde a implantação, o Zarc vem sendo ampliado e atualizado para atender demandas para novas áreas produtoras, cultivares e sistemas de produção. “O zoneamento sempre deve acompanhar as transformações da agricultura. Além de impactos diretos, reduzindo perdas, existem impactos indiretos significativos com difusão de informação, qualificação e tecnificação da produção”, afirma o pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária (SP), Eduardo Monteiro, coordenador geral do Zarc.

Monteiro conta que o Ministério da Agricultura publica periodicamente portarias com as recomendações do Zarc, contribuindo para reduzir as perdas na produção e assegurar o acesso aos programas de mitigação de risco e também viabilizando o acesso ao financiamento agrícola. O produtor deve observar essas recomendações para ter direito ao Proagro, ao Proagro Mais e ao PSR.

Suporte para seguro e crédito agrícola

O zoneamento agrícola é hoje uma importante base de informações para o seguro agrícola brasileiro. Na prática, a tecnologia permite que qualquer agricultor ou agente financeiro saiba as melhores opções de plantio em qualquer parte do Brasil. “O Zarc, que hoje é referência para contratação de seguro agrícola, indica as melhores datas de plantio de culturas para cada município, reduzindo os riscos para o agricultor,” ressalta o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Celso Moretti.

Os pesquisadores utilizam diferentes fontes para alimentar o zoneamento e acompanhar eventuais alterações regionais (no clima, por exemplo) que ocasionam alterações nas indicações de plantio de grãos. Na região do Matopiba (fronteira agrícola brasileira composta pela confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o núcleo de sistemas agrícolas da Embrapa Pesca e Aquicultura está incumbido de atualizar periodicamente informações relacionadas ao Zoneamento, que são base de informações úteis para instituições financeiras oferecerem crédito na região.

O desafio dos riscos na agricultura

“A produção agropecuária é uma atividade econômica com alto grau de risco e incerteza. O trabalho desenvolvido pela Embrapa no Zoneamento Agrícola de Risco Climático é uma importante contribuição na busca de maior sustentabilidade e competitividade do agro brasileiro”, pondera Moretti.

Eventos extremos, como seca, geada, excesso de chuva, granizo, vento e temperaturas elevadas podem causar sérios prejuízos às culturas, tanto durante a fase de enchimento de grãos quanto no período da colheita. Estima-se que a agricultura brasileira ainda sofra perdas anuais da ordem de R$ 11 bilhões somente por impactos climáticos. “A agricultura é uma atividade afetada constantemente por diversos tipos de riscos, principalmente o climático e, na maioria das situações, estão fora do controle humano”, diz o pesquisador da Embrapa Cerrados (DF) Fernando Macena.

Ele conta que o Zarc se transformou em instrumento orientador de política pública, imprescindível para a gestão de riscos na agricultura, e que beneficia a gestão de recursos públicos, assistentes técnicos, produtores e empresários rurais.

O pesquisador da Embrapa Trigo (RS) Gilberto Cunha lembra que, além dos riscos relacionados ao clima que afetam a produção, há também os de mercado, relativos aos preços praticados, e os vinculados ao ambiente institucional, especialmente os normativos. “Assim, sem dúvida, a gestão integrada de riscos está cada vez mais importante nesse setor”, ressalta.

Alíquotas reduzidas e menos perdas

A partir de 1996, por recomendação do Comitê Monetário Nacional (CMN), foram estabelecidas alíquotas reduzidas aos beneficiários do Proagro que optassem por seguir as indicações do Zarc para arroz, feijão, milho, algodão, soja e trigo. Com essas mudanças, houve redução significativa na perda de lavouras e, em consequência, nos pedidos de cobertura pelo Proagro referentes às seis culturas contempladas.

O índice médio de perdas, entre 1996 e 1998, foi de 2,73% nos contratos que optaram por seguir as recomendações do Zarc. Por outro lado, o índice médio de perdas no conjunto de todas as operações foi de 11,5%. Considerando valores atuais do Proagro, como por exemplo a safra 2016/2017, com 5,8% de perdas ou R$ 1,06 bilhão em coberturas e taxas, se as perdas nos patamares antigos de 11,5% fossem mantidas, isso representaria um gasto adicional de quase R$ 1 bilhão, de acordo com o coordenador do Zarc na Embrapa.